Travessia dos Andes pelo paso Vergara

Em 2002  realizamos a primeira Travessia dos Andes, da Argetnina para o Chile, em parceria com a MTB Tours. Desde então anualmente, entre os meses de janeiro a março realizamos quinzenalmente travessias entre essas maravilhosas montanhas.

Os Andes, assim como as Montanhas Rochosas, são de formação geológica recente. Como a Cordilheira dos Andes ainda não foi muito desgastada pelos agentes da erosão, existem ali grandes altitudes como, por exemplo, o Pico Aconcágua, na Argentina, com 6.959 metros de altura.

A Cordilheira dos Andes se estende da Venezuela até o sul do Chile, tendo aproximadamente 7.500 quilômetros. Em alguns trechos, apresenta 3.000 quilômetros de largura e enormes altitudes.

Os Andes, em algumas partes, deixam de formar uma única cadeia montanhosa e se ramificam, formando alinhamentos de montanhas, separados uns dos outros. Entre essas ramificações ou alinhamentos, encontram-se os altiplanos, que são planaltos de altitudes elevadas. Nessas ramificações também são encontrados vales, alguns deles ocupados intensamente pelo homem.

A Cordilheira dos Andes é um lugar fascinante e faz o Planeta Terra mais bonito. É a segunda mais alta cadeia de montanhas do mundo. Por isso, alpinistas do mundo inteiro vão para lá em busca de aventura e desafio.

Mas a região não é reservada apenas para escaladores radicais, podem-se fazer ótimas pedaladas, principalmente em cima de uma mountain bike. É uma excelente opção para quem deseja começar a ter contato com as montanhas sobre duas rodas.

Existem vários pontos para se atravessar os Andes. Mesmo nós realizamos em nossa programação três travessias por locais diferentes. O trajeto dessa nossa primeira travessia, que é também hoje a mais famosa organizada até hoje por nós,  é um caminho pouco conhecido pelos turistas convencionais, mas de grande importância histórica e beleza incomum. E fazer de maneira solo, sem apoio é muito complicado, porque o trajeto segue por uma estrada que não tem nada, não tem cidades e nem povoados, somente algumas fazendas que funcionam normalmente no verão. Cruzamos os Andes pelo Paso Vergara. Neste caminho foi realizada a primeira expedição na região central dos Andes que se tem notícia. Foi organizada pelo general San Martín, quando em 1817, cruzou a cordilheira para auxiliar a libertação do Chile, então dominado pelos espanhóis. Foram necessários três anos de preparativos. Sua tropa, que consistia em 5.300 soldados, 9.280 mulas e 1.600 cavalos, ultrapassou a barreira dos 4.000 metros e surpreendeu os espanhóis, que esperavam um ataque vindo pelo mar. Um caminho de 350 km de montanhas que separam Mendonza da fronteira chilena. Paisagens únicas, deslumbrantes, desertos, geleiras, picos nevados. No verão, única época do ano possível para realização da viagem, a neve só ocupa os picos de algumas das montanhas. Na verdade, as atrações começam pelo tempo: quente e seco com temperaturas altas e céu azul, pois as chuvas, são raras nesta época do ano.

Durante o trajeto tudo muda durante a expedição.A flora e a fauna são limitadas pelo clima árido de altitude. Como a vida vegetal é quase nula – os últimos vestígios se apresentam no máximo aos 4.500 metros – a vida animal é reduzida a lebres, ratos-dos-Andes, poucos guanacos e raríssimos pumas. Ainda existem condores, perdizes, águias-brancas e falcões.

 Dia a dia da Travessia em 2002

  • hoje o trajeto e nossa programação sofreram algumas alterações, para melhor,  devido ao asfaltamento de alguns trechos. Isso deixou a viagem ainda melhor, porque seguimos por caminhos mais inóspitos.

1º dia – Malargüe à Bardas Blancas – 66 km

 Após o café da manhã, fizemos os ajustes finais na bicicleta, alongamento e seguimos para nossa primeira etapa nos Andes até Bardas Blancas. Este primeiro trecho seria em grande parte pelo asfalto pela estrada que liga o país ao Ushuaia, muito longe dali, bem no extremo sul da Argentina. Os primeiros 35 quilômetros percorridos são bastante tranqüilos, quase plano, até Cuesta del Chihuido, uma verdadeira muralha natural encravada nas montanhas, com uma vista de extrema beleza que servem para nos dar uma prévia do que vem pela frente. Antes do início dos 8 quilômetros de subida que vem pela frente, vale a pena dar uma parada para reabastecer-se de água em um rio que atravessava a estrada. Nesta região praticamente todos os rios são águas de degelo, próprias para o consumo. Durante a subida a paisagem torna-se ainda mais bonita, um show de cores. O difícil é manter uma pedalada constante e isso segue durante toda a viagem, pois a cada curva, a cada trecho é parada obrigatória para uma foto. Três quilômetros de subida, bem em uma curva fechada uma capela chama a atenção. Neste local vale a pena procurar algumas pedras no chão, que facilmente serão encontrados os mais diversos fósseis marinhos, mostrando que num passado distante, ali teria sido mar. No meio do caminho, normalmente um pouco depois do final da subida, pausa de aproximadamente uma hora para um lanche e descanso. Após o final da subida a estrada que fica bastante ruim, com muitos buracos. A tão esperada descida, que normalmente vem sempre após uma longa subida, neste trecho, nada adianta, pois o vento contra é uma constante neste trecho. E esse vento contra pode acompanhar até final, em Bardas Blancas, após 66 km, mais com uma sensação de ter pedalado o dobro.

Bardas Blancas, não é uma vila ou cidade, é somente um lugar com apenas um bar. Ao lado, em um terreno rodeado de árvores, para proteger do vento, é o local da montagem do acampamento. O banho pode ser no  rio de águas geladas e transparentes de degelo, do outro lado da estrada ou no bar, que pode ter um bom chuveiro com água quente.

À noite o jantar é servido em uma grande tenda regado de um excelente vinho argentino, com a presença de todos os participantes, muitas vezes com pessoas de vários países, mas brasileiros e argentinos estão sempre em maior número.

2º dia – Bardas Blancas– Las Loicas – 36 km –

Após o café da manhã o acampamento é desmontado e seguimos rumo ao novo acampamento em Las Loicas, distante a 36 km. A partir desse dia começamos a sentir a verdadeira beleza dos Andes. Pouco mais de um quilômetro de pedalada, na ponte que atravessa o Rio Grande, uma vista deslumbrante com suas águas claras em meio a montanhas de picos nevados e avermelhados, uma linda paisagem num verdadeiro jogo de cores. Nesta etapa, praticamente todo o trecho, até Las Loicas, e também por quase toda a viagem seguimos pedalando ao lado desse belo rio. Em função disso a pedalada é bastante tranqüilo, pois como seguimos sempre ao lado do rio, e entre as montanhas, o desnível altimétrico (apenas 120 m) é bem pequeno, praticamente plano.  Las Loicas  é um pequeno povoado, com mais casas e até um bar. Nosso acampamento é montado em um camping bem rústico, rodeado por uma paisagem magnífica.

3º dia – Las Loicas – Rio Montañes – 53 km –

Em Las Loicas passamos pela  alfândega Argentina,

Em Las Loicas são duas as opções para seguir para o Chile. Seguindo a estrada principal da vila em frente, chega-se à cidade de Talca outra opção, mais bonita é pela direita rumo a Termas de Azufre. Mas sempre é necessário se informar das condições da estrada, pois muitas vezes devido a fortes nevascas a estrada pode estar bloqueada.

Rumo a Termas de Azufre cruzamos o Rio Chico e começamos a pedalar sempre pela margem esquerda do Rio Grande que corre sempre pelo impotente Valle Grande. Acompanhados pelas espetaculares formações rochosas, entre montanhas cada vez mais altas e encontrando um Rio Grande cada vez mais rápido e mais cristalino, vamos ganhando altura e quilometragem, até encontrarmos os primeiros vestígios de neve. Nesta etapa encontraremos impressionantes dunas de areias brancas, e com pouco de sorte poderemos ver algum condor. No Rio Montañes, o acampamento é montado em uma fazenda encravada no meio do nada e paisagem magnífica. Neste local é possível passar  uma das noites mais frias (podendo chegar a 0°) e para quem curte pescaria, também é possível pescarmos trutas. 5º dia – Rio Montañes – Termas del Azufre – 47 km – 250 m de subida

Mais um dia de beleza deslumbrante até a Termas del Azufre, é uma das mais incríveis de toda a travessia e também a parte mais difícil de toda a viagem, com subidas, cruzando rios de degelo, forte vento contra e a falta de sombra. Durante o caminho, cruzaremos jazigos de pedras vulcânicas pretas e de pedras pomes, que são as cinzas endurecidas das erupções vulcânicas. O prêmio nos aguarda no final da pedalada. Depois de 47 km ao chegarmos às Termas Del Azufre, podemos observar os picos nevados, especialmente o do Cerro Planchón e o forte vento frio. O acampamento é montado em frente ao glaciar e muito perto do vulcão Peteroa, que até os anos 90 estava em atividade.
As termas são o presente para os ciclistas cansados. Encontramos poços com águas termais de diferentes temperaturas, onde é possível tomar um gostoso banho quente e relaxar bastante no final do dia.

É também o local de acampamento de maior altitude, 2.400 metros, mas não chega a afetar em nada no rendimento ou na respiração. Mesmo estando cruzando a Cordilheira dos Andes, as subidas são de pouca inclinação, pois a estrada segue ao lado de um belo rio de águas claras de degelo, o Rio Grande, cortando um vale com montanhas de até 4.000 metros.

Termas de Azufre é um local bastante visitado no verão, onde muitas famílias e principalmente idosos que buscam em suas águas quentes e sulfurosas a cura para algum problema de saúde. São vários pequenos poços d’água com águas termais variando de 30 a 45 graus. Esses poços são protegidos do vento frio das montanhas com uma pequena mureta.O difícil é sair das quentes águas e encarar o frio do lado de fora, o choque térmico é muito grande. Para quem estiver sentindo falta de uma cama, o local oferece um serviço de hospedagem, em apartamentos montados em containeres.

4º dia – Termas de Azufre – Rio Teno – 41 km – 65 m de subida – 1185 m de descida

Esta é uma etapa muito emocionante. É o dia que cruzamos a fronteira da Argentina para o Chile. Pouco mais de 14 quilômetros das termas, contornando a montanha onde se localiza o vulcão Peteroa, uma fumaça no pico da montanha e o cheiro de enxofre chama a atenção, Já na aduana Argentina, fazemos a documentação de saída do país, no último ponto de fronteira, é também o ponto mais alto de todo o percurso, 2465 m. Cerca de oito quilômetros  no limite dos dois países uma placa lembra a passagem do exército de San Martin rumo a libertação do Chile. Neste trecho é possível observar que no lado argentino a água desce rumo ao Atlântico e poucos metros depois no lado chileno a água segue o curso contrário, rumo ao Pacífico. Pouco depois começa a tão esperada descida. São  1.200 metros de desnível de descidas alucinantes – um caracol rodeado de montanhas e curvas em zig-zag em meio uma paisagem panorâmica é inesquecível.  No fim da descida nova parada obrigatória nas termas ferrosas de San Pedro e a descida continua acompanhados agora pelo rio Teno à direita. No lado chileno é visível a mudança da paisagem, com mais vegetação e mais verde. Mais à frente no posto de Aduana chileno é parada obrigatória, para dar entrada no país. As margens do rio Teno passamos nossa última noite dormindo em mais um acampamento selvagem.

5º dia – Rio Teno – Curicó – 75 km – 1020 m de descida

Em nossa última etapa da travessia é também o mais longo trecho pedalado em toda viagem. Em meio às montanhas de vegetação mais abundante a pedalada segue quase toda ao lado do Rio Teno, com muita descida e longos trechos planos. Bem agradável para se pedalar. Após vários dias sem ver a cor da civilização, chegamos a um vilarejo, chamado de Los Queñes. Daí pra frente à civilização encontra-se bem presente durante todo o restante do caminho. E após 57 quilômetros chegamos ao asfalto que leva até a cidade de Curicó, ponto final da viagem e local de desfrutar de confortos da civilização, como banho quente e uma boa cama e chegar à conclusão que o simples é maravilhoso.

Dica:

Para fazer essa travessia solo é muito complicada. No trajeto não existe postos de abastecimento, nem cidade, nada. Somente algumas fazendas que funcionam somente no verão. Além do mais tem  a mudança constante do clima que pode criar um grande risco de vida.

Não é possível acampar em qualquer lugar. É necessário sempre uma pré autorização antes.

A passagem pela fronteira nas Aduanas é demorada e se não tiver conhecimento local a coisa pode se complicar.

Três produtos não podem faltar na bagagem – creme hidratante, bloqueador solar e repelente. Por causa da altitude, o sol é forte. O repelente será útil para espantar os mosquitos que você encontrar durante as atividades, uma vez que todas elas são realizadas perto, da mata local.

O Sampa Bikers realiza anualmente a Travessia dos Andes nos meses de janeiro a março, com uma completa infra-estrutura de apoio com barracas, carros de apoio e pessoal local especializado em alta montanha. Confira as informações detalhadas e datas no calendário deste site, localizado no topo da tela em seu lado direito.